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Centenário da imigração japonesa - Parte 1

Elas cresceram ouvindo histórias de suas batians, sem imaginar o quão importantes elas se tornariam em suas vidas

(Texto: Vanessa Maeji/NJ | Fotos: Arquivo Pessoal)

Basta uma olhada rápida na internet, jornais e revistas para saber que 2008, mais especificamente o dia 18 de junho, marca o centenário da imigração japonesa no Brasil. Natural que tantos anos de história dêem destaque aos mais velhos, aos primeiros imigrantes, as dificuldades e episódios por que passaram. Mas é através das vozes de seus descendentes que muitas histórias são contadas. Afinal, o legado daqueles primeiros imigrantes está também na vida de jovens – mesmo que grande parte não se dê conta disso. Caroline Okoshi Fioratti, 22 anos, e Francine Sayuri Shimizu, 27 anos, figuram entre as descendentes que cresceram ouvindo histórias de suas batians, sem imaginar quão importante elas se tornariam em suas vidas. Confira abaixo a matéria com as jovens nikkeis.

As formigas de sua avó

O curta "Formigas" conta a história de duas irmãs, Mioko e Emi, que vivem em uma fazenda no interior paulista com sua família, no pós-guerra
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Caroline aborda a época da Shindoo Renmei
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O curta de Caroline Okoshi venceu o Prêmio Estímulo de Curta-Metragem
em 2007

Caroline não conseguia entender como seriam possíveis as narrativas de sua avó. "Ela contava que formigas gigantes entravam em casa e levavam tudo embora". Sob espanto da neta, ela confirmava. "Elas eram grandes. À noite, a gente tinha que fugir pro meio do mato, se não levavam a gente embora". No imaginário de sua batian, que era apenas uma criança na época, tudo fazia sentido. Mas para a jovem aquela história tinha um quê de intrigante. Pesquisando um pouco sobre o assunto e misturando histórias que sua própria avó contava com alguns episódios ocorridos com os imigrantes, Caroline chegou à direção do curta "Formigas", roteiro escrito por ela e que ganhou o Prêmio Estímulo de Curta-Metragem em 2007.

A produção, que deve ser lançada até o final deste ano, conta a história de duas irmãs, Mioko e Emi, que vivem em uma fazenda no interior paulista, no pós-guerra. Na época, surgiu no país uma organização secreta, a Shindo Renmei, composta por japoneses que não acreditavam na derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial. Perseguiam e até matavam os imigrantes que sabiam a verdade, pois acreditavam que eles cometiam uma afronta ao imperador. As formigas do filme são, na verdade, os tokkotai, facção mais extremista do grupo. As meninas não sabem qual a real ameaça de que seu pai tanto falava – as formigas amarelas gigantes que vinham à noite em sua casa e queriam levar seu pai embora. É essa incerteza que leva o filme abordar uma questão que permeia todo o filme: o amor familiar.

Caroline Okoshi se forma este ano em cinema pela FAAP

O curta não mostra a organização ou seus integrantes justamente pela intenção da jovem diretora de tentar mostrar uma história universal. O receio de atingir apenas um público específico - que teve experiências similares ou ouviu histórias sobre o assunto - foi logo descartado por Caroline. "O público que conhece a história e vai se identificar. Mas há um outro público que não conhece e tem de conhecer. E vai se interessar porque é algo que não sabia. Mais do que isso, ele vai se emocionar porque todo mundo entende de amor familiar. Todos entendem o que é um pai protegendo uma filha e filhas querendo proteger os pais", conta.

Com apenas 22 anos e um semestre da faculdade errada para confirmar sua paixão pelo cinema, a jovem se forma este ano em cinema pela FAAP. "Na véspera do vestibular, pirei e fui prestar publicidade. Meus pais ficaram loucos porque desde os 12 eu falava 'quero fazer cinema'", conta Caroline. O curta tem apoio da Gullane Filmes ("O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", "Carandiru" e "Bicho de Sete Cabeças"), produtora na qual trabalha, da própria faculdade e de sua família – que considera essencial para o trabalho que realiza. Detalhe: "Formigas" é apenas seu trabalho de conclusão de curso (TCC), que apresentou na faculdade e o diretor Carlos Cortez ("Querô"), de quem era assistente na época, deu incentivo para que inscrevesse o projeto no Prêmio Estímulo, a poucos dias do prazo final.

Ganhou o prêmio e com ele acabou ganhando também a oportunidade de poder contar as histórias de sua avó e de muitos outros imigrantes. "Não sei como vai ser recebido, tanto pelo público especializado em cinema como pelo público normal. Quero que esse filme comunique e toque de alguma forma as pessoas. Se isso acontecer, estou feliz. É isso que quero", afirma.

Preconceito com os recém-chegados

Capa do DVD da jornalista
Francine Shimizu
 
Francine abordou em seu trabalho de conclusão de curso o preconceito que os imigrantes sofreram no Brasil

"Sabe quando é meio cotidiano, você conversa com a pessoa e ninguém dá muita atenção para o que ela está falando?", pergunta Francine Sayuri Shimizu. Foi assim que explica como chegou em "Brasileiros", trabalho de conclusão do curso de jornalismo na PUC. Depois de fazer um curso no Bunkyo, em São Paulo, com vários temas relacionados com a imigração japonesa, Francine viu um que particularmente chamou sua atenção: o preconceito que os imigrantes sofreram no Brasil, principalmente no pós-guerra. E relacionou este preconceito com o que sua batian contava. "Quando eu era pequena, ouvia minha avó falando 'ah, uma vez um policial me empurrou e eu estava com minha irmã nas costas'", conta.

Seu trabalho feito em vídeo ficou pronto em 2007 após um ano de muito esforço e dedicação e, através de relatos de sua família, aborda a comunidade japonesa nas décadas de 30 e 40 . A legislação do então presidente Getúlio Vargas não permitia, por exemplo, que os japoneses e descendentes falassem o japonês ou ensinassem o idioma nas escolas, além de ter sido criada uma restrição à entrada de imigrantes no país, com uma lei de 1938. No DVD, é possível ver Aiko e Lauro Shimizu, avós de Francine, contar as histórias e todo o preconceito por que passaram, como a perseguição que sofriam até na escola por falar japonês.

"Fiz tentando falar um pouco da história da imigração japonesa e assuntos que a maioria dos brasileiros não conhece. Na verdade, até muitos nikkeis não sabem que aconteceram essas coisas. Queria pegar algo que minha família passou e que ninguém sabia, ninguém comenta", diz a recém-formada. Francine confessa que até ela mesma não sabia muito sobre a cultura japonesa, mas que tem aprendido aos poucos, e acredita que grande parte dela tenha se perdido justamente devido a essa discriminação que a comunidade japonesa enfrentou. "No Brasil, na época da 2ª Guerra Mundial, passar a cultura japonesa era mal visto, você não era bem aceito. Era uma coisa que você quer esquecer, pois não quer ser discriminado, você quer se integrar", afirma.

Para chegar nos pouco mais de trinta minutos de filme, ela calcula que gravou mais de 8 horas de vídeo, sendo que muitas fitas não puderam ser utilizadas na produção já que não havia muito tempo para editá-las. Apesar de toda dificuldade encontrada no contato com câmera, no ajuste de som e iluminação e na edição, Francine conseguiu contar através do vídeo a história de Lauro, que foi grande parte de sua vida treinador de beisebol, e de Aiko, moradora de Bastos, uma das maiores concentrações de japoneses, e que por isso pôde presenciar situações de discriminação por sua ascendência. Utilizando imagens de seu álbum de família, Francine conta que quer mostrar através de sua história essa situação delicada de preconceito, mas também quer incentivar que os descendentes conversem mais com sua família. "Vai tentar ver o que aconteceu. Além de ter uma relação maior com seus parentes, é um jeito de construir uma história e não perder a narrativa deles, que está sendo perdida", lamenta.

Ela atribui aos imigrantes muito da imagem que os nikkeis têm atualmente no país. "Os nikkeis conseguirem se inserir, serem bem aceitos, é uma coisa que a gente deve a eles. Porque eles persistiram aqui e mostraram uma comunidade unida, às vezes vista como comunista e até mais perseguida. Mas que, apesar de tudo, tentou se integrar. Minha avó, apesar de tudo que aconteceu com ela e do que viu, fala 'eu sou brasileira, nasci aqui, gosto daqui. Porque aqui é meu país. Gosto daqui porque meus filhos nasceram aqui, meus netos estão aqui'". Talvez o reconhecimento de sua persistência venha de uma forma singela e inesperada. "Acho que meu avô foi o que ficou mais chocado. Ele não é muito de demonstrar sentimentos, mas depois que ele viu o filme, ligou para minha casa e disse 'ah, jornalista...'", conta orgulhosa. Mas é certo que Francine, ao passar as narrativas de sua família à frente, dá sua contribuição para o que hoje tem muita importância na cultura japonesa: as heranças dos descendentes.

Pós-centenário

A torcida é que após a comemoração dos cem anos da imigração japonesa no Brasil, mais jovens sigam o exemplo das jovens Caroline e Francine, e se interessem em pesquisar temas ligados a sua raízes.

Nos próximos dias, veja uma matéria especial com depoimentos de diversos jovens que contam um pouco das histórias de sua família e qual a importância que elas têm em suas vidas.
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